Neste final de semana, como muitos devem ter acompanhado, tivemos a etapa do Grande Prêmio de Formula 1, do Bahrein.

Uma curiosidade que me chamou a atenção. Por lá, no pequeno estado encravado entre Irã, Qatar e Arábia Saudita, o litro da gasolina pode ser adquirido por equivalentes R$ 1,20, já um litro de água custa R$ 6,00.

Um dos jornalistas que cobriu a etapa chegou a revelar durante a transmissão que só bebia água fornecida pela organização, dada a magnitude dos preços do precioso líquido naquele país!

E por aqui, a quantas andamos?

Tomando por base as discussões em São Paulo, onde alguns estudos acadêmicos indicam que o abastecimento para a população da região metropolitana estaria integralmente garantido somente até 2010, uma das sugestões para frear o consumo desorganizado e, porque não dizer, na maioria das vezes irracional, seria justamente o aumento da tarifa da água.

A defesa de tal mecanismo parte de Dilma Seli Pena, Secretária de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo.

Em recente seminário, alusivo ao Dia Mundial da Água (22 de Março),onde o assunto foi debatido, ela defendeu seu argumento por entender que os preços atuais, muito baixos, não incentivam o uso racional, muito menos evitam desperdícios.

De fato, a Sra. Dilma Seli está correta em uma série de aspectos sobre o problema. O uso da água em São Paulo já se tornou famoso no país por seus elevados índices de consumo e desperdício.

Só para relembrar, o consumo paulistano, onde 10,8 milhões de habitantes são atendidos pelo sistema de abastecimento, é de 221 litros/habitante/dia. O dobro do sugerido pela ONU, 110 litros, como o ideal para suprir as necessidades humanas.

Observando por este aspecto, o plano de aumentar as tarifas poderia até contribuir, mas o problema torna-se complexo se observarmos a distribuição do consumo na região.

Se fecharmos a análise na cidade de São Paulo, o perfil identificado pelos dados revelam, por exemplo, que no bairro de Higienópolis, habitado preponderantemente pela classe media alta, o consumo gira em torno de 500 litros/dia/habitante. Já, na Zona Leste o consumo cai para aproximados 100 litros.

Deste modo, tenho dúvidas até onde a majoração das tarifas podem auxiliar, já que o perfil de consumo excessivo está associado diretamente ao alto poder aquisitivo.

Entendo que o aumento das tarifas, no caso de São Paulo, é ação praticamente irreversível pelo simples equilíbrio da oferta e procura. A atual densidade demográfica da região coloca a disponibilidade de tal recurso no seu limite. Assim é natural que ocorra.

Entretanto, a solução definitiva para este problema deve exigir muito mais.

Existe no Brasil uma percepção sobre a abundancia de nossos recursos naturais que passa a impressão de serem inesgotáveis. Precisamos reeducar nossa sociedade.

Admito a necessidade de ajustar tarifas. Já é assim em diversos países do mundo, porém, deveria estar associada a um amplo processo de informação da população, utilização da rede pública de ensino, chegando até políticas de incentivos para o estímulo à reutilização da água e captação pluvial.

Aliás, tais políticas não deveriam abranger somente a água, mas se propor a modificar todo o entendimento da sociedade sobre a racionalidade do uso de nossos recursos naturais.

Melhor seria assim, ou vamos acabar todos tomando banho com gasolina!